Escrito por Gabriel
Perissé
Analiso
abaixo a letra da canção “Ai se eu te pego”,
interpretada por Michel Teló, sucesso nacional e internacional. Na
primeira estrofe, temos...
Sábado
na balada
A
galera começou a dançar
E
passou a menina mais linda
Tomei
coragem e comecei a falar
Cada verso
e cada palavra de Teló nos conduzem a universos paralelos da
cultura. O primeiro verso faz menção ao “Porque hoje é
sábado”, em que Vinícius de Moraes revê a criação do
mundo.
A balada a
que se refere Teló alude àquele antigo poema com que se narrava
alguma tradição histórica, acompanhado ou não por instrumentos
musicais. Ou àquela peça puramente instrumental como cultivavam
Chopin, Brahms ou Liszt.
A
supracitada galera (“turma”, “amigos”,
“gente”) de Teló se equipara ao decassílabo “Vogo
em minha galera ao som das harpas”, de um poema de Castro
Alves.
Reportando-se
de novo ao poetinha Vinícius de Moraes (“Garota de
Ipanema”), Teló também contempla a menina linda que passa. E
vai além. Em êxtase, tomado pela excitação poética, num ato de
coragem extrema, o baladeiro se declara:
Nossa,
nossa
Assim
você me mata
Ai se
eu te pego, ai ai se eu te pego
Delícia,
delícia
Assim
você me mata
Ai se
eu te pego, ai ai se eu te pego
A dupla
exclamação — “nossa, nossa” — nos remete à
admiração de que falava Aristóteles como ponto de partida da
reflexão filosófica, ou pode se tratar também de uma forma reduzida
da interjeição “Nossa Senhora!”, inserindo o poema no
amplo cenário (e não menor mercado) das composições
religiosas.
Outra
referência inconfundível é o locus poético em que amor e
morte se encontram — o clássico “morrer de amor”.
O verso “Assim você me mata”, que o cantor faz
acompanhar com o abanar da mão em direção ao rosto (simulando morte
por asfixia ou enfarte), equipara-se a momentos sublimes da poesia
romântica de Gonçalves Dias ou Casimiro de Abreu. Há, entre outros
exemplos, um soneto em que Camões, dirigindo-se ao Amor, com ele se
queixa: “Que vida me darás se tu me
matas?”
Aqui
termina o poema de Teló, com uma concisão que lembra Paulo Leminski
e Mario Quintana.
Mas parece
que os imortais que acima citei não gostaram das comparações feitas
aqui. Das suas tumbas erguem-se vozes, cantando em
uníssono:
Perissé,
Perissé
Assim
você nos mata!
Extraído de
http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6715:perisse130112&catid=18:gabriel-perisse&Itemid=95
Sobre o
autor:
Pós-doutor em Filosofia e
História da Educação pela Faculdade de Educação da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), estudando "A linguagem educacional
brasileira. Quatro estilos contrastantes: Cristovam Buarque, Pedro
Demo, Regis de Morais e Rubem Alves", em 2011.
Mestre em Literatura Brasileira pela Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), com a dissertação
"Carlos Nejar: uma admiração problemática", em 1989.
Bacharel em Letras (Português e Literaturas
Brasileira e Portuguesa) pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ), em 1985.
Desde 1983, ministra palestras e minicursos em
escolas, universidades, empresas, editoras, sindicatos e
associações culturais, percorrendo mais de 900 cidades
brasileiras.
Desde 1996, publicou mais de 20 livros
relacionados a temas como leitura e criatividade, ética, formação
docente e didática.
Desde 1989, publicou mais de 1.000 artigos e
ensaios em revistas (acadêmicas e de divulgação científica), em
jornais, blogs e sites, e traduziu mais de 10
livros para diferentes editoras, do inglês, do francês e do
espanhol.
Entre 1998 e 2011, atuou como professor
universitário e coordenador pedagógico (graduação e pós-graduação)
em São Paulo (SP).
Dados curriculares completos na Plataforma Lattes. Outras informações no
Facebook e na Wikipédia.
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